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O veterano Marcos Carnaúba, ex-presidente do IMA e ex-coordenador do DNOCS, afirma que o problema pode ir além do Pinheiro e alerta para riscos silenciosos na área mais nobre da capital.
Redação 03/01/2024
Uma nova avaliação técnica sobre o cenário geológico de Maceió reacendeu o alerta sobre a estabilidade do solo na capital alagoana. O engenheiro civil Marcos Carnaúba, referência histórica da engenharia no estado, afirmou que os problemas de afundamento do solo podem não estar restritos aos bairros já oficialmente reconhecidos, como Pinheiro, Mutange e adjacências. Segundo ele, há indícios preliminares de subsidência também na Ponta Verde, uma das áreas mais valorizadas e verticalizadas da cidade.
As declarações foram feitas durante entrevista ao podcast Estruturando Soluções, apresentado pelo engenheiro e mestre em engenharia química Paulo Miranda. Aos 83 anos, Carnaúba — ex-presidente do Instituto do Meio Ambiente de Alagoas, ex-coordenador do DNOCS e fundador do grupo técnico Geocustódio — decidiu tornar públicas preocupações que, segundo ele, vêm sendo subestimadas no debate técnico e institucional.
Dados internacionais e hipótese de afundamento generalizado
Durante a entrevista, o engenheiro relatou ter tido acesso a um relatório técnico preliminar elaborado por pesquisadores de Potsdam, na Alemanha, cidade que abriga um dos mais reconhecidos centros de pesquisa em geodinâmica e sismologia do mundo. Carnaúba fez questão de ressaltar que o material ainda não foi oficialmente publicado, mas afirmou que as conclusões apontam para um fenômeno mais amplo.
“Talvez o mar não esteja subindo. Talvez o continente esteja afundando”, afirmou, ao sustentar que o processo de subsidência pode estar ocorrendo de forma lenta e progressiva em diferentes áreas da cidade, inclusive na orla marítima.
Peso das edificações e extração do subsolo A explicação apresentada pelo engenheiro associa dois fatores principais: a extração de fluidos do subsolo (como água e petróleo) e o peso extraordinário das edificações, especialmente na orla, onde há intensa verticalização.
Segundo Carnaúba, a retirada de fluidos cria vácuos subterrâneos. Pela ação da gravidade, o solo e tudo o que está acima tende a ocupar esses espaços. “Edifícios muito pesados, construídos sobre um subsolo fragilizado, tendem a acompanhar esse movimento descendente”, explicou.
O engenheiro também questionou a interpretação recorrente de que o avanço do mar seja o principal fator de risco na orla. Para ele, o fenômeno pode ser inverso: o solo estaria cedendo, alterando a relação entre continente e nível do mar.
Um dos maiores acidentes geológicos em área urbana Carnaúba afirmou que pesquisadores estrangeiros classificam o caso de Maceió como um dos maiores acidentes geológicos do mundo relacionados à mineração de extração, sobretudo por ocorrer em área densamente habitada. Diferentemente de regiões mineradoras em zonas rurais ou isoladas, o fenômeno na capital alagoana atinge diretamente bairros inteiros, com impactos sociais profundos.
O engenheiro lembrou que mais de 60 mil pessoas já foram deslocadas, com perda de vínculos comunitários, impactos no sistema viário, no transporte público, em escolas, unidades de saúde e na própria configuração urbana da cidade.
(Legenda do Infográfico): Maceió: O Maior Desastre Geológico do Mundo em Área Urbana
O desastre e seu impacto humano: +60.000 pessoas deslocadas.
O problema maior: A erosão costeira acelerada. Abandono das minas de sal-gema da mineração Braskem.
Pela ação da gravidade, o solo e tudo o que está acima tende a ocupar esses espaços.
“O continente está afundando” – Marcos Carnaúba.
Críticas a soluções paliativas e vistorias superficiais
Outro ponto levantado na entrevista foi a crítica ao que chamou de “indústria de vistorias”, na qual diagnósticos estruturais seriam realizados sem considerar a dinâmica do solo. Carnaúba citou exemplos de moradores que investiram grandes quantias em reforços estruturais — como estacas e ferragens — sem sucesso, porque o problema não estava nas edificações, mas no terreno em movimento.
Ele também questionou a segurança das fundações profundas dos prédios da orla. “Se a rocha que sustenta essas fundações estiver cedendo em profundidade, não há estaca que resolva”, alertou.
Defesa de diagnóstico científico aprofundado
Para o engenheiro, qualquer intervenção eficaz precisa partir de um diagnóstico científico robusto, que integre dados geológicos, geotécnicos, hidrológicos e urbanos. Ele comparou a situação a práticas médicas: não é possível tratar sem antes compreender a causa do problema.
O alerta final é direto: sem compreender plenamente a interação entre extração do subsolo e o uso da cidade, soluções pontuais tendem a ser ineficazes e dispendiosas. Enquanto isso, segundo Carnaúba, o risco pode estar avançando de forma silenciosa — inclusive sob áreas até agora consideradas seguras, como a Ponta Verde.