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Neymar divide o Brasil como só a política e o clássico de rival conseguem

Neymar divide o Brasil como só a política e o clássico de rival conseguem

Pesquisa da ESPM mostra que 56% dos torcedores querem o camisa 10 de volta à Seleção, e 30,5% não o convocariam de jeito nenhum. O mesmo jogador, a mesma camisa, o mesmo país. Dois Brasis.

São Paulo, 13 de maio de 2026 — Tem algo que o futebol brasileiro dificilmente consegue fazer: unir o país. Mas, quando o assunto é Neymar, essa lógica parece não se aplicar. Uma pesquisa do Centro de Estudos Aplicados de Marketing da ESPM-SP, com 400 torcedores de todo o Brasil, confirma o que já ecoa nas rodas de bar: Neymar é, ao mesmo tempo, o jogador mais amado e o mais rejeitado da Seleção, um nível de polarização que ultrapassa o campo.

O levantamento pediu que cada torcedor indicasse até três jogadores que considerava indispensáveis para uma convocação e até três que não convocaria de forma alguma. Neymar liderou os dois rankings com folga. 224 torcedores, 56% da amostra, o querem de volta. E 122, quase um terço, disseram que não o convocariam de jeito nenhum. Nenhum outro jogador chegou perto das duas listas ao mesmo tempo. Vinicius Jr., o segundo mais querido com 38,5%, tem apenas 6,5% de rejeição. Paquetá e Danilo aparecem mais rejeitados do que aprovados. Só Neymar habita esse território único: o de ser, ao mesmo tempo, o sonho e o pesadelo da torcida.

“Ele concentra mais aprovação e mais rejeição do que qualquer outro nome. Isso não é indiferença, é polarização afetiva intensa”, diz Eduardo Mesquita, pesquisador do CEAM.

Política entrou em campo

Se a divisão em torno de Neymar parecia apenas esportiva, os dados indicam que ela vai além das quatro linhas. A percepção do torcedor sobre o camisa 10 acompanha, de forma consistente, o espectro político brasileiro.

Entre os que se identificam com a direita, 66% defendem a presença de Neymar na Seleção, enquanto 24% são contrários, um saldo amplamente favorável. Entre os torcedores de esquerda, o cenário se inverte: a rejeição chega a 42%, superando a aprovação, de 37%.

O padrão revela um nível de polarização incomum para um atleta. Os índices de aprovação e rejeição de Neymar se aproximam da dinâmica observada em pesquisas eleitorais. Segundo o levantamento, a relação entre posicionamento político e opinião sobre o jogador é estatisticamente significativa: mais do que coincidência, trata-se de padrão.

No campo do centro-esquerda, o cenário é de equilíbrio absoluto: 45,5% defendem a presença do jogador, enquanto outros 45,5% são contrários. É o único grupo em que a divisão é total, um retrato que lembra disputas eleitorais em segundo turno.

A explicação passa por fatores que vão além do futebol. Neymar declarou apoio político em 2022 e se envolveu em episódios que alimentaram narrativas em diferentes espectros ideológicos. Nessa conta, o futebol, tradicionalmente visto como espaço de trégua, passa a refletir também as tensões do debate público.

A idade também divide

A aprovação de Neymar varia conforme a faixa etária e é mais alta entre os mais jovens. Entre torcedores de 18 a 34 anos, 64,8% defendem sua presença na Seleção, enquanto 20,8% rejeitam: uma vantagem de 44 pontos percentuais.

Entre os mais velhos, de 55 a 65 anos, o apoio é menor. 50,3% são favoráveis, enquanto a rejeição chega a 35%, reduzindo o saldo para 15 pontos percentuais.

O padrão reflete diferenças geracionais. Para os mais jovens, Neymar é a principal referência de talento e protagonismo. Entre os mais velhos, a comparação com ídolos como Ronaldo, Ronaldinho e Zico tende a elevar o nível de exigência.

Quem não divide

No meio da polarização em torno de Neymar, alguns nomes surgem como pontos de consenso entre os torcedores. Endrick é o caso mais emblemático: 15,3% o querem na Seleção, enquanto apenas 1,3% o rejeitam, um saldo positivo de quase 14 pontos percentuais. Estêvão aparece com 4,3% de aprovação e 0,3% de rejeição. Já Luiz Henrique registra 4,5% de aprovação e nenhum índice de rejeição na amostra quantitativa.

O contraste com jogadores mais experientes é evidente. Lucas Paquetá tem mais rejeição (10%) do que aprovação (5,5%), enquanto Danilo apresenta cenário semelhante: 9,3% de rejeição contra 3,3% de aprovação. São nomes que já passaram pelo crivo da torcida e não saíram ilesos.

A diferença está, em grande parte, no fator geracional. “São jovens ainda sem passado para cobrar. Ainda não tiveram tempo de decepcionar ninguém, ainda não perderam Copa nenhuma. O Brasil os ama porque ainda não tem motivo para não amar. Por enquanto”, diz Mesquita.


FICHA TÉCNICA

  • Pesquisa: CEAM — Centro de Estudos Aplicados de Marketing | ESPM-SP

  • Pesquisador responsável: Eduardo Mesquita, coordenador do CEAM e professor da PPGP — ESPM-SP, e Marcelo Carvalho, pós-doutorando da ESPM

  • Amostra: 400 torcedores brasileiros

  • Metodologia: Survey online com questões abertas. Cada respondente indicou até 3 jogadores indispensáveis e até 3 que não convocaria. Metodologia de respondentes únicos — cada torcedor contado uma vez por jogador.

  • Representação: Cotas por gênero, faixa etária (18-34, 35-54, 55-69, 70+), região, escolaridade e renda (ABEP 2021).

  • Período: Copa do Mundo 2026

  • Contato: ceam@espm.br

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